terça-feira, 14 de julho de 2015

PROIBIDÃO É CULTURA? (Por Luiz Antonio Simas)

PROIBIDÃO É CULTURA?

Lá vou eu dar uma opinião e me enfiar em confusão sobre o "proibidão". Me perguntam aqui se eu acho que é cultura e se deve ser considerado crime. A pergunta certamente se refere a uma reportagem que saiu em O Globo sobre esse debate.

Imediatamente me recordei de um texto antigo do Joaquim Ferreira dos Santos, no mesmo O Globo, em que ele se manifestava contra a venda de mate de latão nas nossas praias. O jornalista, em certo momento do arrazoado, tentou ser engraçado e lançou na ocasião duas pérolas dignas de sambadinhas do Rubinho Barrichello no pódium. A primeira: "Abaixo a depressão dos falsos civilizados e consagre-se no poder o viés africano que nos vai na veia". A segunda: "A malandragem, foi dito na reunião da secretaria, é cultura".
A primeira sentença é um primor. A bandalheira é ironizada como a supremacia criadora do viés africano que nos vai na veia e o sabichão alfineta os que ressaltam a importância das áfricas que forjaram boa parte da cidade. Joaquim exerce aqui duas lições que andam fazendo a cabeça de muita gente: sabem um pouco de tudo e não entendem profundamente de nada e são incapazes de pensar o presente com uma perspectiva mais reflexiva sobre o passado que o gerou.

Não custa repetir: a exclusão social no Brasil foi um projeto de Estado. A República fechou as portas, após a abolição da escravatura no final do Império, a qualquer projeto de integração dos descendentes de escravizados no mercado formal de trabalho e no exercício pleno da cidadania. A cultura da informalidade, portanto, é decorrente em larga medida (é, por outro lado, opção) da falta de alternativa. Se é boa ou ruim é outro papo. O que interessa é que ela existe e não é fruto de viés que vai na veia - é estratégia de sobrevivência.

Aproveito o mote do parágrafo acima para dizer com toda a convicção: Malandragem é cultura.
Ou ainda estamos na fase de confundir cultura com evento? Cultura não é coisa naturalmente boa ou ruim, caceta. Cultura é a maneira como um grupo cria ou reelabora formas de [re]invenção da vida e estabelece significados sobre a realidade que o cerca. As maneiras de falar, vestir, comer, rezar, punir, matar, nascer, enterrar os mortos, chorar, festejar, envelhecer, dançar, não dançar, fazer música, silenciar, gritar... tudo isso é componente da cultura de um grupo.

Há no Rio de Janeiro uma cultura da informalidade absolutamente arraigada ao cotidiano do carioca. Quem quer que faça juízo de valor, mas nessa eu não caio. Essa cultura se estabelece entre as frestas deixadas por um poder público que historicamente se preocupou mais em reprimir do que em incluir.
Eu estudo o samba urbano e sei que ele foi tremendamente perseguido, como até o Cristo Redentor sabe. Desde a Era Vargas o processo de legitimação do samba se impôs - entre negociações, domesticações, adequações e resistências - e quebrou as bordunas e cacetes da polícia. Candeia, entretanto, sabia que não era suficiente legitimar o samba como manifestação de fundamento da cultura carioca. O dia de graça só virá mesmo, na visão dele, quando o sambista conseguir cantar o samba na universidade, na condição de aluno ou professor.

Não me interessa neste caso manifestar meu gosto pessoal - marcado por questões subjetivas, circunstâncias de vida, hábitos e que tais - sobre o proibidão. É cultura, fato social relevante e pronto. A questão deste debate, para mim, não é estética. Me parece mais uma velha mania nossa, os iluminados, de achar que certos segmentos sociais tem que ter o gosto pautado por aquilo que nós achamos que é cultura.
Isso me parece tão óbvio, confesso, que não tenho nem ânimo para discutir. E mais não digo, já que tem muita gente mais capacitada para pensar isso do que eu. A minha resposta a uma pergunta simples é essa. Segue o barco.

PS: outro dia escutei um funk na rua. Não entendo nada da estética do babado, o que é um problema meu. A base percussiva, todavia, era um alujá de Xangô. Da estética do funk, repito, eu não entendo nada. Mas um alujá eu reconheço de longe.

LUIZ ANTÔNIO SIMAS é professor de história.

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